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O fascínio de uma camisa

 

O fascínio de uma camisa
Confira o artigo escrito por Milton Moraes


Milton Moraes - 29/6/2005

Camisa Tricolor

 

O poder de fascínio de uma camisa. Até então o dia tinha sido ensolarado, mas àquela hora da tarde o sol havia desaparecido e o céu anuviara exibindo  densas nuvens cinzentas, prenunciando chuva. Eu caminhava pela praia e um garoto de 9 ou 10 anos de idade, acompanhado de um jovem que aparentava ser seu pai, não tirava os olhos de mim. Criando coragem, o menino aproximou-se e perguntou: "o senhor já foi jogador do São Paulo?". "Não", respondi. "Mas por que a pergunta?" O menino com o dedo indicador mostrava o boné que eu trazia na cabeça onde estava estampada a seguinte inscrição: "III ENCONTRO DOS EX-JOGADORES PROFISSIONAIS DO SÃO PAULO F.C". Expliquei-lhe que havia participado daquele encontro como convidado e ganhara o boné de brinde. "Você é são-paulino?", indaguei. "Sou sim, fanático!", exclamou o garoto, abrindo um largo sorriso. "Naturalmente você herdou este bom gosto do seu pai. Este rapaz aí é seu pai, pois não?" "Meu pai ele é, mas não são-paulino torce para o Santos como todo o resto da família", disse-me com cara de decepcionado. "Então, quem te influenciou para tornar-se torcedor do São Paulo?" "Foram as cores". "As cores? Que cores?" "O vermelho, o branco e o preto. Existe combinação de cores mais bonita do que esta? O senhor conhece camisa mais linda que a do São Paulo?" "Não, não conheço". O diálogo com aquele menino despertou reminiscências da minha infância. Naquele instante a memória levou-me a 1945, quando eu tinha a mesma idade do Denis, o meu jovem interlocutor. Meu pai, embora não ligasse muito para futebol, nutria simpatia pelo Santos. A tendência, portanto, é que eu fosse torcedor do alvinegro praiano. Mas, até então, eu não havia escolhido qualquer clube para torcer. Estávamos no dia 13 de maio de 1.945, um bonito domingo de sol. Meus pais receberam para o almoço o "tio" Carlos Gomes e sua esposa, amigos íntimos da família, "quase" parentes. Após o almoço "seu" Carlos convidou meu pai para ir à Vila Belmiro assistir a partida entre o Santos e o São Paulo pelo campeonato paulista. "Vamos Silvestre, pois deve ser um grande jogo. O São Paulo é líder invicto e o Santos sempre dificulta as coisas para os grandes aqui no seu campo", disse o "seu" Carlos que era palmeirense. "Não!" respondeu meu pai, inclinando o corpo para trás e estirando para o alto, de modo preguiçoso, os dois braços, bocejando que preferia tirar uma soneca. "Leva o Milton", ainda teve tempo de dizer antes de esparramar-se no sofá da sala. Morávamos a poucas quadras do campo e fomos os dois, eu e o "seu" Carlos, a pé. Durante toda a caminhada fui "falando pelos cotovelos", demonstrando toda a minha ansiedade. Pois pudera, seria a primeira vez que veria jogar um dos componentes do "trio de ferro". Até então só havia assistido umas poucas partidas entre pequenas equipes. O estádio do Santos tinha o formato quadrangular e as suas arquibancadas eram todas de madeira e abrigavam, talvez, umas cinco mil pessoas. O campo de jogo propriamente dito era rodeado em toda a sua extensão por uma cerca de madeira com aproximadamente 1,30 m. de altura. Ninguém invadia o gramado, embora jogadores adversários, juiz e bandeirinhas fossem invariavelmente xingados pela torcida. Atrás das arquibancadas laterais erguiam-se as torres de iluminação, duas de cada lado. Na parte posterior de uma das metas elevava-se sobranceira uma majestosa palmeira imperial que seria o alvo preferido do centro-avante Juvenal que alguns anos depois jogaria no Santos, vindo do Fluminense. O gramado era uma lástima. Sem drenagem, quando chovia transformava-se em verdadeiro lamaçal. Seco, era cheio de torrões e buracos. A sua conservação era feita de maneira bastante original. O Santos mantinha durante a semana um rebanho de carneiros que pastava as ervas daninhas que nasciam no meio da grama. O acanhado estádio estava superlotado. Vários torcedores penduravam-se nas torres de iluminação, alheios ao perigo a que estavam expostos. O Santos foi o primeiro a entrar no gramado. Seus jogadores vestiam camisas com listras verticais pretas e brancas e calções e meias pretas. Logo a seguir entrou o São Paulo com o seu uniforme todo branco com duas faixas horizontais, uma preta e outra vermelha, com o escudo do clube no centro do peito. Os calções e as meias eram brancos. Causou-me forte impressão ao ver pela primeira vez aquela camisa com a combinação das cores branca, preta e vermelha. Meu coração bateu mais forte. "Este é o meu time", disse em brados, assustando o "seu" Carlos que ao meu lado conversava com uma pessoa. Aquelas três cores juntas naquela camisa me fascinaram, tanto quanto ao Denis. Foi amor à primeira vista. Mas o melhor ainda estava por vir. Iniciada a partida aquele grupo de jogadores esbanjava classe e categoria como eu nunca havia visto antes. O Santos corria e o São Paulo jogava. Lá no gramado Gijo, Piolim e Virgílio; Bauer, Rui e Noronha; Barrios, Sastre, Leônidas, Remo e Teixeirinha tocavam a bola de pé em pé, com invejável harmonia e elegância. "Moço, moço", despertou-me o Denis, batendo levemente no meu braço, ao notar que eu estava distante e desatento às coisas que ele dizia. "Desculpe, estava distraído", disse-lhe meio sem graça. "Não tem problema", respondeu com o olhar fixo no meu boné. "Toma, fica para você", boquejei ao seu ouvido, colocando o boné na sua cabeça. Surpreendido, não disse uma única palavra, apenas abraçou-me, beijou o meu rosto e foi embora. Dos seus olhos azuis havia rolado uma lágrima solitária que escorreu por sua face alva. Lá de longe, de vez em quando, virava--se para trás e acenava para mim até sumir por completo. Os primeiros pingos da chuva anunciada começaram a cair, o que me obrigou a recolher-me a casa bem antes do que desejava. Aquela partida de 1945 terminou empatada graças a espetacular atuação do Joel, goleiro do Santos, que até pênalti defendeu. O São Paulo, é verdade, não venceu o jogo, mas ganhou um torcedor apaixonado. Para sempre.



 Escrito por PC às 14h31
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